quinta-feira, 11 de junho de 2009

Comunicação da mente cega?

(07/04/2006) Mentes e Metáforas - Parte 2
Comunicação da mente cega?
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http://www.ama.org.br/html/apre_arti.php?cod=28



Este artigo faz uma revisão de trabalhos recentes sobre o entendimento que os indivíduos autistas têm da linguagem figurada. Uma importante teoria corrente do autismo propõe que a base dos prejuízos na imaginação, socialização, e comunicação, resulta fundamentalmente de um déficit na “teoria da mente” – a capacidade de atribuir estados mentais a si próprio e a outras pessoas. Assim, o autismo apresenta um fascinante caso de testes para teorias como a teoria da relevância de Sperber e Wilson (1986), que merece destaque na compreensão das intenções na comunicação cotidiana. Neste artigo, eu apresento evidências de que a compreensão de similaridades, metáforas e ironias por crianças autistas está diretamente relacionada com o seu nível de capacidade em apresentar uma teoria da mente. O caso do autismo demonstra a importância do entendimento das intenções na comunicação humana normal, tanto na forma “literal” quanto figurativa.

Francesca Happé - Parte 2

COMUNICAÇÃO DA MENTE CEGA?

RECONHECENDO INTENÇÕES E COMPREENDENDO A LINGUAGEM FIGURADA

LINGUAGEM FIGURADA E TEORIA DA MENTE

COMUNICAÇÃO DA MENTE CEGA?

A comunicação codificada pareceria se aproximar bem do uso simples e instrumental das palavras e sinais, visto em muitos indivíduos com autismo (Paul, 1987; Schopler & Mesibov, 1985). Por exemplo, Baron-Cohen (1989b) descobriram que pessoas com autismo eram competentes em usar e entender o ato imperativo de apontar ( como apontar para conseguir algo), mas falhavam em compreender e empregar o apontar declarativo (como apontar para dividir atenção). Enquanto o primeiro tem um significado determinado (algo como “me dê aquilo que estou apontando”) e portanto pode ser empregado como um código, o último tem um significado flexível que depende do contexto, porque é apenas um indício da intenção do agente. O uso autístico da linguagem falada pareceria ser instrumental em muitos casos (Fay & Schuler, 1980); pessoas com autismo aprendem os rótulos dos objetos e usam estes nomes como pedidos com uma única palavra. O nome do objeto pareceria tornar-se um código com um significado fixo nesses casos (algo como “maçã” significando “me dê uma maçã”), ao invés de um rótulo para alguma representação mais abstrata do objeto, o qual poderia então ser usado de maneira mais flexível (como apontar para a maçã por admiração sem o desejo de pegá-la). Mesmo no caso em que Kanner (1946) enganosamente chamou de criança com a “linguagem metafórica” do autismo (p.242), os novos termos utilizados parecem servir apenas como um código e não como uma evidência da intenção de informar algo. Assim, por exemplo, quando um dos pacientes de Kanner (Donald T.) deu nomes idiossincráticos a cores (“Annette” para a cor azul, “Cecile” para a vermelha, e assim por diante), a substituição parece ter sido feita para sua própria satisfação e não, com a intenção de comunicar seus pensamentos a outros.

Sem a habilidade de imaginar a intenção de informar, muitas pessoas autistas podem ser incapazes de reconhecer o comportamento ostensivo (comportamento que demonstra uma intenção de informar, isto é, a apresentação) ou de distingui-lo do comportamento não ostensivo. Isto poderia explicar a aparente surdez e o atraso no aprendizado da linguagem, vistos em muitas crianças com autismo, que não se orientam para a fala e parecem tratá-la como um ruído em segundo plano (Kanner, 1943; Paul, 1987). Em contraste, as crianças normais prestam atenção aos sons da fala, como um evidente estímulo produzido com a intenção dirigida para o ouvinte.

Não são todas as pessoas com autismo, entretanto, que tem a mente totalmente bloqueada. Vale lembrar que uma minoria avaliada, conseguiu passar nos testes de falsa crença. Algumas pessoas desta minoria hábil parecem entender intenções de primeira ordem mas não as de segunda ordem (isto é, intenções sobre o estado mental de outros; Baron-Cohen, 1989 a). Isto os tornaria capazes de reconhecer a intenção informativa de quem fala, mas não a intenção comunicativa, a qual é uma intenção de segunda ordem. Esta inabilidade os impede de dominar as conversas que são tão comuns em nossa vida social normal, e que são relevantes apenas porque transmitem a intenção comunicativa de segunda ordem. A este respeito, a teoria apresentada neste artigo (e em Happé, 1991, 1993) é particularmente diferente de outras análises do papel da teoria da mente na comunicação. Por exemplo, Tager-Flusberg (1993) sugeriu que a inabilidade da pessoa com autismo em usar a linguagem para transmitir informação é o paradigma da interrupção da comunicação: “Crianças autistas não parecem desenvolver a compreensão de que a conversação deve estar vinculada à troca de informação. Isto parece ser o centro daquilo que torna a comunicação com pessoas autistas tão difícil “(p.153). Em contraste, a análise apresentada neste artigo, sugere que o auge da falha de comunicação devida a falta de uma teoria da mente, ocorrerá precisamente quando nada além da intenção de comunicar é transmitido. Em adição a esta falha com a linguagem, uma inabilidade em imaginar pensamentos a respeito de pensamentos impediria outros determinados atos da fala – expressões que, de acordo com Sperber e Wilson (1986), são interpretações do pensamento de um locutor sobre um referido pensamento (veja a próxima seção).

RECONHECENDO INTENÇÕES E COMPREENDENDO A LINGUAGEM FIGURADA

Há muitas situações em que o locutor, visando uma melhor relevância, pode não exprimir uma interpretação literal dos seus pensamentos. Este é o caso, por exemplo, em que o pedantismo é evitado. Se alguém pergunta quantos anos tem o seu filho, você, na maioria dos casos, não irá fornecer a idade exata em anos, meses e dias, mas em vez disso, dirá uma estimativa arredondada em anos, o que exige menor esforço de processamento pelo ouvinte (isto é, na ausência de qualquer indicação da necessidade de maior precisão que justificasse os custos de um maior processamento). Sperber e Wilson (1986) alegaram que não há descontinuidade entre tais utilizações imprecisas e a linguagem figurada. Ambas ocorrem simplesmente como resultado da procura por relevância por parte do locutor, levando-o a adotar uma interpretação mais ou menos literal de seus pensamentos.

Por estarmos, no processo de comunicação, interessados nas intenções do locutor que, como Sperber e Wilson (1986) colocaram, “o mesmo ponto em evidência pode ser empregado, em diferentes momentos, para manifestar diferentes suposições, inclusive suposições mutuamente inconsistentes, desde que manifeste a intenção por trás da ostensão” (p.52). A mesma forma superficial pode manifestar diferentes suposições, conforme diferentes propósitos comunicativos, sustentando a declaração. Por exemplo, um simples comentário do tipo “Está quente” pode ser interpretado como comunicação da intenção de “vamos sair”, “vamos ficar aqui dentro”, “por favor abra a janela”, “posso tirar o meu casaco?” e assim por diante. Da mesma maneira, um ato não verbal de ostensão pode ser utilizado como sinal de inúmeros diferentes significados intencionais: O ato de apontar pode ser um comando para ir, um pedido para pegar algo, um comentário, ou uma resposta a uma pergunta. Trabalhando com a suposição de que o ato ostensivo é o mais relevante (o princípio da relevância), é possível decidir que suposições estão confirmadas e qual significado foi pretendido.

A expressão metafórica, então, é apenas uma outra maneira de forçar uma relevância na comunicação. Da mesma maneira que uma expressão “literal” ou um gesto (por exemplo, apontar) podem ter inúmeros significados, a expressão figurada pode atuar como evidência de inúmeras diferentes intenções. Portanto, de acordo com Sperber e Wilson (1986), “quaisquer que sejam as habilidades e os procedimentos necessários para entendê-la (expressão metafórica), são independentemente necessários para interpretar expressões não figurativas “(p.238). Expressões figurativas, como todas as outras expressões, são interpretadas por ouvintes normais como expressões e indícios do pensamento do locutor.

Se, como foi sugerido anteriormente, muitas pessoas com autismo são incapazes de atribuir intenções, então a comunicação deveria parecer interrompida para eles quando a atitude do locutor deve ser considerada para modificar o sentido literal da sentença usada. Enquanto o comunicador normal interpreta cada declaração em função do pensamento e das intenções do locutor, as pessoas com autismo devem simplesmente descodificar as palavras usadas. Esta ausência de estratégia pode não ser sentida em alguns casos (por exemplo, você pode decifrar um comentário direto como “o tempo está quente”) mas não permitirá a compreensão de expressões comuns e mais soltas (por exemplo, “Hoje está fervendo!”). Sem a habilidade de mentalização, a transparência de intenções que permite aos humanos usar a linguagem de uma maneira realmente flexível, não está aberta aos comunicadores autistas. Diante do quebra-cabeça que a comunicação ostensiva deve então propor a elas, as pessoas com autismo podem não ter outra escolha além de adotar uma interpretação rígida – um significado falho da forma proposicional da declaração – no lugar das evasivas e inconstantes intenções da conversação normal.

É amplamente relatado (Happé, 1991; Tantam, 1991) que, mesmo as pessoas com autismo mais capacitadas verbalmente, falham no entendimento da fala não literal, como o sarcasmo, a piada e as expressões metafóricas. Embora relatos anedóticos ressaltem o uso formal, excessivamente literal e pedante da linguagem no autismo, não tem havido registros sistemáticos do seu uso enfocando a produção de linguagem figurada. Isto deve ser, em parte, devido à falha comum em perceber quando comunicadores normais estão de fato usando expressões figuradas. As pessoas estão mais interessadas em pensamentos que em palavras (nas intenções e significados ao invés da forma da declaração), e as expressões não literais do dia a dia, são justamente outra maneira de comunicar pensamentos. Em trabalho recente (Happé, 1993), eu investiguei o uso e a compreensão da linguagem figurada em indivíduos com autismo.

LINGUAGEM FIGURADA E TEORIA DA MENTE

De acordo com a análise há pouco apresentada, a comunicação normal conta com a nossa habilidade em atribuir estados mentais (em particular, intenções) uns aos outros – a habilidade que tem sido chamada de teoria da mente. Pessoas com autismo, que parecem carecer da teoria da mente, proporcionam um evidente caso de teste para esta asserção. Se, como Sperber e Wilson (1986) sugeriram, entender intenções é vital para a compreensão da comunicação ostensiva-inferencial, então pessoas com a habilidade de mentalização prejudicada também possuem habilidades de comunicação severamente prejudicadas. Além disso, teorias relacionadas fazem predições sobre como pessoas que podem atribuir estados mentais simples (pensamentos sobre fatos), mas não complexas intenções de segunda ordem (pensamentos sobre pensamentos), devem manejar os diferentes tipos de declaração.

De acordo com Sperber e Wilson (1986) símiles podem ser entendidos a um nível puramente literal – dizer Ele era como um leão não é diferente de dizer Ele era como o seu pai. Em ambos os casos ao ouvinte é dada a tarefa de decidir em que sentido existe a similaridade. A predição é, desta forma, que mesmo locutores com autismo que carecem da teoria da mente devem ser capazes de usar e entender símiles, porque neste caso, uma interpretação literal será suficiente.

A metáfora, por outro lado, requer algum entendimento de intenções. Numa metáfora, a forma proposicional da declaração é uma interpretação mais ou menos livre do pensamento do locutor. Assim sendo, metáforas não podem ser totalmente compreendidas ou adequadamente utilizadas sem uma teoria da mente de primeira ordem. Descodificar as palavras literalmente não funcionará. Um paralelo pode ser extraído dos testes de falsa crença (como a tarefa de Sally-Ann), que requerem a representação de estados mentais, porque no caso falso, a crença e a situação real (isto é, a localização da bola), são crucialmente diferentes. Assim como numa situação de falsa crença, a opinião do ator é crucial e a realidade sozinha não conduz a nenhuma ação, numa metáfora a intenção do locutor é vital, e trabalhar com a “realidade” na forma do sentido literal da declaração não é suficiente para a compreensão.

De acordo com Sperber e Wilson (1981; veja também Sperber, 1984), a ironia é mais ainda exigente, requerendo um entendimento de estados mentais de segunda ordem – atribuição de um pensamento a respeito de um pensamento (uma m-representação de segunda ordem). Sperber e Wilson consideram expressões irônicas como sendo citações ou referências a um determinado pensamento. Quando exclamamos ironicamente Bom, muito inteligente não?!

estamos mencionando um possível pensamento e expressando uma atitude – uma atitude de zombaria. Gibbs (1986) explorou esta “teoria de menção onomatopéica” em adultos normais. A partir de resultados de três estudos de registro de tempo, Gibbs concluiu que os adultos não precisam processar o sentido literal de uma expressão sarcástica antes de derivar sua interpretação não literal e que, a facilidade de processamento e memória para o sarcasmo depende de quão explicitamente a declaração do locutor ecoa uma suposta crença, opinião ou afirmação. Estas descobertas e as de Jorgensen, Miller e Sperber (1984), dão suporte a teoria de Sperber e Wilson.

Se a teoria da menção onomatopéica da ironia está correta, então a ironia é diferente de outras expressões figuradas, no nível em que a teoria da mente requer. A ironia deve apresentar problemas de interpretação para pessoas que tenham apenas habilidades da teoria da mente de primeira ordem, independente de serem autistas ou crianças normais. A relação entre a capacidade de metarepresentações e a compreensão de ironias tem recebida alguma atenção de Winner e Leekam (1991), que predisseram que a habilidade de atribuir convicções de segunda ordem seria necessária para distinguir a ironia da trapaça. Em um grupo de crianças normais, elas mostraram que, como foi predito, a capacidade de julgar o tom emocional de uma declaração (por exemplo, agradável para uma inocente mentira e maldoso para uma ironia) era dependente da capacidade de julgar o desejo do locutor com relação à opinião do ouvinte (por exemplo, o locutor quer que o ouvinte acredite no que foi dito na inocente mentira, mas não quer que o ouvinte acredite na ironia). Um estudo posterior (Sullivan, Winner, & Hopfield, em jornal) usando um teste em separado da teoria da mente confirmou estas descobertas. Leekam e Prior (1994), usando materiais de estórias de mentiras de brincadeira e uma tarefa de teoria da mente de segunda ordem, testaram a discriminação de mentiras de brincadeira em pessoas com autismo e, confirmaram a conexão entre compreensão de estados mentais de segunda ordem e a correta discriminação entre piadas irônicas e mentiras.

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